Cidade Consuetudinária

     Nasci, cresci e moro no Rio de Janeiro por isso afirmo com conhecimento de causa: não é maravilhoso.

⊂ Da série “veio pelo whats” ⊃

rio_de_janeiro menor

      “Cidade Maravilhosa” é pura propaganda delirante. A menos que se refira estritamente às riquezas naturais dos anos 40, 50 e 60. Depois disso, pouco restou de maravilhoso. É uma cidade normal –consuetudinária– para os dias de hoje, com decadência, mentira e violência por todos os lados e insistir no título é puro romantismo. Mas obviamente essa é a minha opinião.
E antes de se incomodar com o que eu disse, saiba que existem muitos a concordar comigo. Tanto que recebi o texto abaixo de uma pessoa amante do Rio, mas que se rendeu a certos fatos que reforçam o meu modo de perceber essa cidade. Ainda bem que existe o bom humor, senão seria muito difícil de encarar…

ESTOU RINDO HORRORES !!! HAHAHAHAAHHAHAHAHA
Guia de moradia para o Rio de Janeiro. 
✔ BARRA DA TIJUCA – Um lego habitado por seres humanos. A Barra da Tijuca é notória por lhe obrigar a sair de carro para comprar mariola. Logo, a Barra não é exatamente um bairro; é um presépio montado para emergentes e jogadores de futebol.
Adendo: se você mora no condomínio Rio 2, você é de Curicica, pare de esconder a conta de luz de sua família e peidar cheiroso. 
✔ BRÁS DE PINA – Tem clima de vulcão proporcionado pelo rico canavial de postes de luz. Aqui é o único lugar do RJ em que a esfiha do chinês é feita com carne de cachorro autenticada pelo William Bonner (lembra da notícia no Jornal Nacional? Pois é, foi aqui). 
Como em certos países escandinavos, Brás de Pina oferece transporte gratuito aos seus moradores. De manhã é possível ver idosos, grávidas e crianças pulando na plataforma do BRT para evitar a roleta. Brás de Pina também abriga o conjunto do Quitungo. Diga esse nome em voz alta pausadamente: Qui. tun. go.
✔ COPACABANA – Esse bairro é como dia de pagamento na Caixa Econômica: um congresso de geriatria cujos participantes se vestem com meias cor de churros e bermudas. Copacabana tem tanto velho que até os pivetes já estão com artrite por osmose; os batedores de carteira precisam roubar em slow motion para não ficar fora de sincronia temporal com suas vítimas. 
✔ LIDO – Bairro fictício que só existe na cabeça de quem acha que a Praça Arco Verde não está em Copacabana.
✔ LAPA – Se você for em todos os orelhões desse bairro e descolar os folders de travestis, dá para alinhá-los e contornar a Terra. 
✔ VICENTE DE CARVALHO – Quando as portas do metrô se abrem, os moradores se transformam numa manada de gnus fugindo do incêndio numa Savana. Vale empurrar, dar bandão e dedada no olho para ocupar um banco no vagão.
✔ CURICICA – É onde fica o PROJAC. Cabô, fim, tem mais nada lá.
✔ VAZ LOBO – Como o nome sugere, à noite é tão sinistro e deserto que a polícia leva munição de prata. 
✔ RECREIO – Andar de carro no Recreio é como jogar River Raid (lembra do joguinho do avião no Atari?): o cenário  infinito vai ficando mais rápido, mas a paisagem de condomínios se repete sem fazer muita diferença.
✔ SÃO GONÇALO – Quem mora aqui diz que é de Niterói e vai continuar afirmando isso mesmo sob tortura. Para um autêntico gonçalense, Niterói vai da ponte até o Espírito Santo. 
✔ TIJUCA – Os tijucanos acreditam que foram arrancados da Zona Sul por um vórtice dimensional, mas seu bairro fica na Zona Norte tanto quanto Olaria. Orgulhosos de morar em um vale cercado por alvenaria laranja, um típico tijucano só sai de casa guarnecido por um poodle e um filho com uniforme do Colégio Pedro II.
✔ MÉIER – Pela intensidade dos engarramentos, suspeita-se de que o Méier é povoado por paulistas infiltrados no RJ. No baixo Méier – e todo bairro que coloca “baixo alguma coisa” tá querendo tirar onda de bacana – tudo envolve trânsito, até mesmo ir a pé ao Sindicato do Chope.
✔ MADUREIRA – É o cenário perfeito para filmes de Kickboxer. Você não precisa ir para Hong Kong em busca de figurantes chineses, pois 90% das pastelarias do planeta estão na Edgar Romero.
✔ VILA DA PENHA – Uma versão rica da Penha, com a diferença de que a classe média faz cooper ao redor do Valão do Oliveira Belo como se estivesse no calçadão de Copacabana. Um viladapenhense se acha muito cult, mas as salas de cinema do Shopping Carioca são todas dubladas. 
✔ HIGIENÓPOLIS – Se a vida fosse um episódio de Stranger Things, Higienópolis seria o ” Upside Down” de Bonsucesso. Esse bairro se mistura com a saída 7 da Linha Amarela e suas fronteiras só são perceptíveis quando você já está deitado no chão com os crackudos em Manguinhos. 
✔ PARADA DE LUCAS – Só pelo nome você não vai querer parar lá.
✔ INHAÚMA – O nome desse bairro soa como alguma variação de aipim amazônico, mas para descrevê-lo com justiça é necessário expandir a imaginação. Já assistiu O Senhor dos Anéis? Então… Inhaúma é onde o Frodo precisa ir para destruir o anel. 
✔ HONÓRIO GURGEL – Esse bairro exportou a Anitta para o mundo. Consiste em um apêndice de Rocha Miranda, só que com milhares de terreiros de candomblé funcionando de segunda à segunda.
✔ BANGU – Bairro com quatro estações do ano: verão, calor pracarai, combustão espontânea e sucursal do inferno. Bangu tem uns borrifadores de água no calçadão, mas isso só ajuda a criar lama de maquiagem na cara das mulheres. Destaque para a presença do Rio Guandu, que abastece toda a cidade com água e DNA de cadáveres desovados.
✔ RIO CENTRO – Centro de quê? Só se for do fiofó da mãe de quem batizou esse lugar de bairro. Se não fosse o centro de convenções, teria um vilarejo de curupiras nesse lugar.
✔ ILHA DO GOVERNADOR – O trânsito aqui é tão absurdo que o bairro se transformou no estacionamento do Galeão. O insulano acha que é irlandês; odeia sair desse arquipélago de bosta flutuante. O destaque aqui é a vida noturna na praia da bica, local com uma impressionante vista do mar em tom de caldo de cana. 
✔ JAPERI – Quando era escoteiro eu acampava em Japeri. Sejamos francos, um bairro onde é possível ACAMPAR define tudo o que você precisa saber sobre ele. 
✔ CAMPO GRANDE – Esse leva um adjetivo justo. Campo Grande merecia uma monarquia. Com certeza é do tamanho da Europa, só perde em dimensões continentais para Nova Iguaçu, que possui todos os climas da terra e uma fauna impressionante de cachorros mutantes que moram em oficinas mecânicas. Big field é tão grande que possui 3 FUNCKING ESTRADAS. Preste atenção. As estradas não cortam Campo Grande, elas estão dentro de Campo Grande! O clima é o mesmo de Dubai e todo mundo recorre ao West Shopping para economizar ventilador, pois morar em Campo Grande é prova cabal de não ter grana para pagar ar condicionado.
✔ LAGOA – Apesar do nome, esse bairro tem uma poça de musgo e conteúdo de bunda. Posso dizer com segurança que aqui é o c* da Cidade Maravilhosa. Todo o cocô do Rio de janeiro desemboca nessa lagoa. Ao redor, um monte de  prédios cujo preço do metro quadrado vale mais do que um rim no mercado negro. Aliás, é mais fácil você importar um filho adotado na Gearbest do que conseguir um aluguel barato.
✔ LEME – Esse não-bairro entre o final de Botafogo e início de Copacabana se materializou graças ao consciente coletivo. Se as pessoas das adjacências resolverem ficar descrentes em relação a existência do Leme, os prédios vão desaparecer e os moradores acordarão na ilha de Lost.
✔ BONSUCESSO – Em suas calçadas a densidade demográfica supera a quantidade de pessoas na Índia e China juntas. É um núcleo sem qualquer padrão arquitetônico. Tem C&A ao lado de açougue e camelô na calçada do Banco Itaú. O Complexo do Alemão em peso faz faculdade na SUAM. 
✔ SANTA TEREZA – Você vai saber onde fica farejando a nuvem de maconha que toma os céus. Parece a cidade Nova Era do seriado do Osho que tem na Netflix.
✔SANTA CRUZ – É o fim da Matrix. Depois de Santa Cruz a realidade é uma tela preta cheia de códigos binários. É tão longe, mas tão longe, que fica depois de um bairro chamado PACIÊNCIA – e olha que essa viagem é de trem, o meio de transporte mais rápido do RJ.
✔ ESTÁCIO – Acho que o Estácio é tipo o Acre; escreveram o nome numa estação de metrô para fazer baldeação, mas nunca subiram as escadas para ver se lá fora existe um lugar de verdade.
✔ PADRE MIGUEL – É a Silent Hill do Rio de janeiro. Depois que escurece, coisas estranhas acontecem no 926 Penha x Senador Camará. As bizarrices já começam no fato de que nunca conheci alguém que morasse em Senador Camará, ponto final desse ônibus. Nem na rádio 98 eu ouvi qualquer dedicatória de amor de alguém que vivesse em Senador Camará. Saca aqueles locutores falando? “Bira da Abolição dedica Careless Whispers para Antônia de Nilópolis”. Sério, nunca se ouviu um locutor falar o nome de alguém em Senador Camará.
✔ PAVUNA – Uma zona de transição entre o nada e o porra nenhuma. A Pavuna é uma encruzilhada quântica em que o passado se mistura com o presente: tem SESC e tem viaduto, mas também tem camelô que aceita pagamento em Cruzeiro e carroças puxadas por equinos. Faz fronteira com São João de Meriti e Villar dos Telles, o vale do silício do jeans.
✔ SÃO CRISTÓVÃO – Famoso pela Feira dos Paraíbas, que agora está hipsterizada. São Cristóvão é a Gotham City carioca. Com a Linha Vermelha sombreando um longo trecho, o bairro proporciona condições ideais para perder os pais em um assalto e vestir uma roupa de morcego.
✔ LEBLON – O nome é tão seboso e blasé que nós, os pobres, chamamos de “Lebron” em ato de protesto contra a francofonia do nome. Aqui o pessoal já acorda maquiado porque as pessoas não são de verdade; elas são androides numa West World que imita uma novela do Manoel Carlos. O Leblon é tão elitizado, que se você mora no Flamengo, eles te olham como a Dona Florinda olha para o Seu Madruga. Contudo, lá existe A Cruzada, uma chaga de pobreza que faz todo Leblonense lembrar que jamais morará em Paris – chupa que é de Uva!

✔ CAXIAS – Um município tão grande que não cabe descrevê-lo em um post. Mentira. Na verdade eu tô com medo de ofender algum matador de Caxias. O bairro tem mais quebra-coco por metro quadrado do que M&Ms num pacotinho.

 

Eu sei que toda cidade tem suas mazelas, mas o Rio de Janeiro está osso…

cristo redentor choroso

 

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